Nubia é apaixonada pela Casa de Apoio à Criança com Câncer.
Nascida em Ilhéus, desde os 4 anos queria fazer medicina. Estudou no Rio de Janeiro e Salvador onde cursou a Faculdade Baiana de Medicina.
Nesta época, ainda não tinha em mente no que ia se especializar, mas não queria fazer ginecologia, nem pediatria, porque isso geralmente era coisa de mulher. O mundo deu muitas voltas e acabou por fazer pediatria e trabalhar no hospital Martagão Gesteira, "Hospital da Criança."
Nubia não tinha nenhuma atração especial por Oncologia, mas haviam muitos casos de crianças com câncer que vinham do interior para se tratar no Martagão. Fazendo um trabalho de mapeamento dessas crianças, A doutora acabou gostando de trabalhar nisso. Saiu por dois meses para fazer um estágio de oncologia em Buenos Aires. Teve sorte, pois devido a uma epidemia havia pouca gente trabalhando e no segundo mês, já atendia.
Logo criou-se no Martagão o primeiro Centro de Oncologia do Norte e Nordeste e o primeiro em um hospital pediátrico. O cargo de Chefe de Serviço era dela. O Martagão foi sua casa durante 22 anos, época extremamente produtiva.
Geralmente, as crianças com câncer chegavam com a doença em um estágio muito avançado, pois, desde quando os sintomas começavam a aparecer, até a criança chegar ao Centro de Oncologia do Martagão, já haviam peregrinado por diversos hospitais do Estado. As famílias não tinham condições financeiras de trazer as crianças sempre que precisassem para fazer o tratamento. As passagens geralmente caras, e não havia lugares adequados para abrigá-las. Frequentemente as crianças faltavam nos dias marcado, não havia telefone e os telegramas não chegavam. Infelizmente o tempo perdido trazia o agravamento da doença e chegavam ao Centro em estágio terminal.
Nubia foi fazer uma especialização em Paris no maior centro de referência no tratamento de câncer da Europa. Lá eram atendidos desde pobres da África e do Marrocos até filhos de embaixadores, havia uma atenção especial àqueles que não tinham condições de se transportar até o local, tudo isso marcou-a muito.
Voltando a Salvador, mesmo sem conhecer pessoas influentes, queria montar uma casa de apoio, fornecer cestas básicas e passagens para as famílias das crianças que estivessem fazendo o tratamento do câncer. Contando com o apoio de Roberto Sá Menezes, hoje presidente do GACC, começou a realizar seu grande sonho de um modo bastante AMADOR (no verdadeiro sentido da palavra), mas não havia nada concretizado ainda.
A primeira casa de apoio tinha uma localização muito boa, pois ficava na esquina do Martagão. Quando conseguiu a casa, se emocionou e novamente ao contar isso para os convidados do LUNCH-in. A casa tinha 4 quartos e começou a sobreviver de doações de amigos.
A casa de apoio reduziu indiscutivelmente o abandono, mas o tratamento da criança com câncer não é só isso. É preciso dar apoio psicossocial às crianças e às famílias.
Ficaram nessa base até conseguirem uma casa quatro vezes maior na rua Amparo do Tororó, um pouco mais longe mas ainda assim muito próxima do Martagão. A compra dessa casa foi feita a partir de uma doação anônima.
A casa acabou ficando pequena. Nubia queria que cada criança tivesse seu próprio quarto. Então Roberto iniciou um projeto e o apresentou ao BNDES, conseguindo 2 milhões de reais para construir a sede do GACC próxima ao Hospital São Rafael.
O Martagão decidiu fechar o Centro de Oncologia, por mais de três meses as crianças com câncer ficaram espalhadas pelos hospitais do Estado.
O São Rafael abriu as portas, doando o terreno para fazer a construção da sede definitiva do GACC.
A materialização desse sonho gerou 52 apartamentos. Cada família quando chega recebe a chave de uma unidade e fica o tempo que for necessário, recebem 6 refeições diárias, acompanhamento de nutricionista, tratamento psicológico, psicossocial e etc. Há biblioteca, escola, brinquedoteca, espaços de teatro, música, leitura, informática, pintura e também o espaço da bagunça. Como o ambiente é muito voltado ao infantil, foi criado o espaço do adolescente.
Conseguiram um convênio com o Instituto Ayrton Senna, que banca a brinquedoteca do GACC, além de mais duas outras briquedotecas em Casas de Apoio a Crianças com Câncer no Brasil.
É certo que as crianças vem com o intuito de se tratar e não para brincar, mas enquanto se tratam, o GACC cuida de dar todo o apoio, não só à criança, mas também à família, que fica "doente" junto com a criança e desestruturada com o tratamento. Não basta tratar a doença, o tratamento tem que ser global.
"As crianças com câncer são crianças como quaisquer outras, adoram festa e folia, são espirituosas e tem muito a ensinar. No GACC não se conversa com crianças e pais separadamente, a criança sabe da doença que tem."
Emotiva, Nubia mostrou a todos o quanto este trabalho é importante para sua vida e sua carreira.
Nós é que aprendemos muito com a sua presença doutora!