Sob as palavras de Ailton Ferreira, o LUNCH-in é um bom passo que deve ser seguido por outras organizações. Uma empresa que se coloca dessa forma, se torna estrategicamente mais competitiva.
As organizações caminharão melhor se estiverem harmonizadas, promovendo situações que melhoram a convivência, agindo com justiça social e dialogando com o mundo real. Afinal, os fornecedores e os consumidores são de todas as cores.
Durante muito tempo no Brasil, quem falasse sobre racismo era tido como chato. Negros e negras que lutaram contra o racismo foram taxados como loucos. Não eram loucos e nem estavam errados quando falavam em desigualdade.
Salvador tem vários complexos civilizatórios, que definem a forma, o jeito de ser das pessoas, o ritmo no qual elas andam, definem a agenda da cidade.
Em Salvador, quanto mais se vive ao norte, mais longe do centro, maior é o preconceito. E foi no bairro da Fazenda Grande que Ailton começou seu movimento social, lendo livros de esquerda muito estimulados pelo Partido Comunista. Nesse período, Ailton não tinha visão ambiental, sexo ou de raça, o que havia era a distinção entre pobres e ricos.
Da mãe, Ailton aprendeu uma importante lição: não se podia chegar em casa com nada que não fosse seu. Quem lhe deu? Seu pai comprou? Você trabalha? Então devolva!
O pai votava no MDB e dizia que fazia isso porque esse era o partido dos pobres e o Arena era o partido dos ricos. Essa foi a lição que Ailton aprendeu do pai: nada contra os ricos, mas é melhor ficar do lado dos pobres.
Essas duas lições são coisas importantes que o Brasil precisa ter. Não pegar o que não é nosso e dividir as riquezas.
"Nós perdemos a bússola da ética, achamos que roubar é normal e faz parte, e isso está nos desestruturando, abalando a todos, aos ricos e aos pobres."
Embora sendo de esquerda, Ailton pensava de forma universalista. Mas em alguns momentos, sabia que o seu lugar era o de negro, de militante esquerdista. Começou aí a perceber que os negros nunca estavam em posições de frente nessas causas, sempre eram os apoiadores.
"O Brasil colocou muitas pessoas em situações desfavoráveis porque tinham pele negra. Nosso país foi formado por grupos que foram convocados para dominar, mandar. E outro grupo que foi convocado para ser dominado, obedecer."
"Não há uma pessoa racista ou ruim, o racismo é um sistema."
Uma sociedade que viveu sob o signo da escravidão por quase 4 séculos não muda de uma hora para outra. Imagine o que aconteceu com as pessoas que a 400 anos estavam acostumadas a serem servidas por escravos e de uma hora para outra tudo acabou, a escravidão foi abolida? Ailton nos levou a pensar:
"Nós aprendemos que lugar de mulher é na cozinha e que nego é inferior. A lei protege contra contra esses preconceitos, mas não muda nossa mentalidade."
"As gerações mais velhas tiveram brancos como primeiro professor, primeiro médico, primeiro dentista ou primeiro chefe. Da mesma forma viram negros como primeiro pobre, primeiro empregado, primeiro preso, primeiro faxineiro... Dessa forma as crianças vão aprendendo que negro é a cor do faxineiro e branco é a cor do médico. E o Brasil aprendeu isso muito bem.
Mudar essa mentalidade só pode ajudar a todos, mas há pessoas que não querem mudar temendo o que podem perder. Precisamos mudar pensando que isso pode ser ganhar, somar, agregar."
"O racismo brasileiro é tão sofisticado, tão evoluído, que chamamos nossa empregada de parte da família, mesmo sabendo que ela não vai herdar nenhum patrimônio, é no quarto dela que guardamos as coisas que não queremos, a mesa de passar."
"O meu papel de negro é o de abrir portas para que o nosso povo possa entrar".
Sensível, Ailton finalizou respondendo todas as perguntas da plateia e pacientemente atendeu individualmente àqueles que o procuraram. Obrigado Ailton!